O filme “Regras do Amor na Cidade Grande”, lançado em 2024 e baseado na obra homônima do escritor Park Sang-young, acompanha a jornada de dois amigos que encontram na liberdade, aceitação e cumplicidade uma forma de amor que não precisa se transformar em romance para ser profunda.
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Ao abordar temas como sexualidade, preconceito e as dificuldades enfrentadas por quem não corresponde às expectativas de uma sociedade conservadora, conhecemos Jae-hee (Kim Go-eun) e Heung-soo (Noh Sang-hyun). Ela é extrovertida e vive sua sexualidade livremente, enfrentando constantes julgamentos e fofocas desde a universidade até a vida profissional. Heung-soo, por outro lado, é gay e esconde sua orientação sexual das pessoas ao seu redor por medo da rejeição, especialmente diante da relação conturbada com a mãe.
Quando Jae-hee descobre por acaso que Heung-soo é gay, ela não o julga nem o trata de maneira diferente. A partir daí, os dois constroem uma amizade que, ao longo dos anos, se transforma no principal porto seguro de suas vidas.
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Jae-hee e Heung-soo encontram um no outro a liberdade de serem quem são
Acompanhamos o início da trajetória dos dois ainda na casa dos vinte anos, quando Heung-soo é visto por Jae-hee aos beijos com o professor de seu curso na universidade, onde ela guarda a informação e o defende dos olhares preconceituosos dos colegas. Jae-hee, por sua vez, torna-se alvo de fofocas após uma imagem falsa de nudez circular entre estudantes da universidade, mas Heung-soo se recusa a compactuar com os ataques.
É nesse cenário que os dois se aproximam e embarcam juntos em uma vida noturna regada a festas, encontros amorosos e descobertas. Em determinado momento, Jae-hee resume de maneira bem-humorada a improvável dupla formada pelos dois ao dizer que “a vadia maluca encontra o amigo gay”.
Os dois passam a morar juntos e compartilham relacionamentos frustrados, situações cômicas e, principalmente, as vulnerabilidades que carregam em suas vidas pessoais. Um dos pontos mais interessantes de “Regras do Amor na Cidade Grande” está justamente no fato de Jae-hee e Heung-soo enfrentarem, por motivos diferentes, a pressão social para se encaixarem em determinados padrões.
Jae-hee é julgada por ser uma mulher sexualmente livre e por não corresponder ao comportamento que a sociedade espera de uma mulher considerada “adequada” para um relacionamento. Heung-soo, por sua vez, reprime parte de quem é diante da homofobia que enfrenta e da relação com a mãe, que não aceita sua orientação sexual e recorre à religião na tentativa de mudá-lo.
O filme consegue, dessa forma, inserir misoginia, homofobia, sexualidade, pressão social e preconceito em uma mesma narrativa sem tratar as experiências dos protagonistas como iguais. Pelo contrário: essas questões são exploradas a partir das vivências individuais de cada um e ajudam a explicar por que ambos encontram tanta segurança nessa amizade.
A relação dos dois, porém, também enfrenta conflitos. Em determinado momento, Jae-hee é humilhada publicamente por um rapaz por quem estava apaixonada ao descobrir que ele possuía uma namorada e a enxergava apenas como diversão, expondo detalhes de sua vida sexual diante de outras pessoas durante um festival. Heung-soo havia combinado de encontrá-la, mas acaba indo a um encontro de um grupo LGBTQIA+ após ser convidado por um colega da universidade. Inicialmente desconfortável com a ideia de permanecer no local, ele encontra ali outras pessoas com experiências semelhantes às suas.
O momento muda de tom quando o encontro é alvo de um ataque homofóbico, onde Heung-soo reage para defender algumas das pessoas presentes. Na manhã seguinte, ainda sem saber exatamente o que aconteceu com o amigo, Jae-hee desconta nele a frustração por tê-lo esperado. Heung-soo também reage e lembra que não poderia estar ao lado dela todas as vezes que um relacionamento desse errado.
A discussão evidencia algo importante: a amizade dos dois funciona como refúgio, mas não é perfeita. Eles também se machucam, falham e precisam aprender a respeitar os limites um do outro e ainda assim, acabam se reconciliando e permanecem juntos durante os momentos agridoces que atravessam ao longo dos anos.
Aos trinta anos, “Regras do Amor na Cidade Grande” mostra que a vida pode tomar rumos inesperados
Quando chegam à casa dos trinta anos, encontramos versões diferentes dos dois personagens: Heung-soo retorna após cumprir o serviço militar e após passar um período estudando na Austrália, Jae-hee segue construindo sua vida profissional. Nesse período, ela mantém um relacionamento com Ji-seok (Oh Dong-min), colega de trabalho que apresenta comportamentos controladores e tóxicos. Heung-soo percebe a dinâmica problemática entre os dois e começa a questionar se a melhor amiga realmente está feliz.
Jae-hee é pedida em casamento, mas hesita em dar uma resposta. Um dos maiores conflitos da história acontece quando Ji-seok encontra Jae-hee e Heung-soo juntos no apartamento dela e parte para cima do amigo da namorada. Durante a discussão, Jae-hee revela que Heung-soo é gay na tentativa de explicar a natureza da relação entre eles, expondo uma informação pessoal que caberia somente a ele decidir quando e para quem revelar.
A atitude provoca uma forte discussão entre os amigos, onde Heung-soo deixa o apartamento e precisa voltar a morar com a mãe. Posteriormente, quando Ji-seok, alcoolizado, agride Jae-hee, Heung-soo deixa o ressentimento de lado para ajudá-la e incentiva a amiga a procurar a polícia. É nesse momento que “Regras do Amor na Cidade Grande” demonstra a maturidade que ambos adquiriram ao longo dos anos. Isso não significa ignorar os erros cometidos um contra o outro, mas compreender que uma relação construída durante tanto tempo também exige responsabilidade, perdão e crescimento.
Depois dos acontecimentos, Heung-soo decide seguir seu desejo de escrever, enquanto Jae-hee se aproxima de Min-jun (Lee Sang-yi) um colega de trabalho que nutria sentimentos por ela. Algum tempo depois, os dois se casam. Durante a cerimônia, Heung-soo presta uma homenagem à melhor amiga ao dançar “Bad Girl, Good Girl”, do miss A — uma escolha que combina perfeitamente com a personalidade de Jae-hee e com tudo o que sua trajetória representa. A própria diretora Lee Eon-hee explicou que a música foi escolhida por considerar que sua letra combinava com os personagens e poderia funcionar quase como uma mensagem de Heung-soo para Jae-hee.
A cena carrega um sentimento agridoce, pois Heung-soo está genuinamente feliz por vê-la seguindo um novo caminho, ao mesmo tempo em que percebe que aquela fase da vida dos dois está mudando. Não significa o fim da amizade, mas o reconhecimento de que crescer também envolve permitir que aqueles que amamos construam caminhos diferentes dos nossos.
Uma história de amor que nunca precisou ser romântica
“Regras do Amor na Cidade Grande” mostra que uma amizade capaz de atravessar diferentes fases da vida, acolher vulnerabilidades e oferecer um espaço onde não é necessário esconder quem se é pode ser tão transformadora quanto qualquer relacionamento romântico. Nesse sentido, o maior acerto do filme está justamente em não transformar Jae-hee e Heung-soo em um casal. A relação entre uma mulher heterossexual e um homem gay não é utilizada como preparação para uma inesperada paixão, mas uma amizade que é tratada como uma forma legítima e profunda de amor.
A produção também evita construir uma Coreia do Sul idealizada. Por trás das festas, das noites em Seul e dos momentos de humor, existe uma sociedade em que Jae-hee enfrenta misoginia por viver sua sexualidade livremente, enquanto Heung-soo convive com a homofobia e com o medo de ser rejeitado simplesmente por ser quem é. A própria narrativa foi reconhecida por abordar justamente personagens que não correspondem às expectativas de uma sociedade mais conformista.
O “amor” de “Regras do Amor na Cidade Grande” não está restrito a encontrar um parceiro romântico em meio a milhões de pessoas, para Jae-hee e Heung-soo, ele também está em encontrar alguém diante de quem não seja necessário fingir, se diminuir ou pedir desculpas por existir. No fim, os dois não precisam terminar juntos romanticamente para serem um dos grandes amores da vida um do outro.
Onde assistir Regras do Amor na Cidade Grande?
“Regras do Amor na Cidade Grande” chega na plataforma de filmes Filmelier+ nesta quinta-feira (24), com exibição gratuita.
Foto Destaque: Pôster alternativo de “Regras na Cidade Grande”. Divulgação/A2 Filmes