
K-pop vive onda de independência com artistas deixando grandes agências
A indústria do entretenimento da Coreia do Sul atravessa um momento de transição relevante no setor do k-pop, impulsionado pela decisão de artistas consagrados de romper vínculos com grandes agências para criar operações próprias. Esse movimento, que ganha força nos últimos anos, reflete uma busca maior por controle criativo, autonomia financeira e gestão direta da própria carreira.
Leia Mais:Show de retorno do BTS lidera Netflix com 18,4 milhões de espectadores
Leia Mais:HUNTR/X, de Guerreiras do K-Pop, pode ganhar turnê mundial pela Netflix
Dados recentes indicam que essa mudança não é pontual, mas estrutural. O número de empresas de entretenimento registradas cresceu significativamente entre 2021 e 2025, enquanto a participação de artistas vinculados a grandes agências apresentou queda. Em contrapartida, a presença de gravadoras individuais vem aumentando, sinalizando uma reconfiguração no modelo tradicional do K-pop.
Crescimento das agências solo e vantagens econômicas
As chamadas empresas unipessoais, conhecidas como 일인 기획사, permitem que artistas administrem suas próprias atividades, mantendo direitos sobre suas produções e negociando contratos de forma independente. Esse modelo garante maior participação nos lucros e flexibilidade estratégica, fatores cada vez mais valorizados por nomes já consolidados no mercado.
Além da autonomia, há também incentivos financeiros relevantes. Na Coreia do Sul, a diferença entre a tributação de pessoas físicas e jurídicas cria um cenário favorável para artistas que operam como empresas. Enquanto a alíquota máxima do imposto de renda pessoal pode chegar a 45%, a tributação corporativa tem limite inferior, além de permitir deduções que não estão disponíveis para indivíduos. Essa combinação torna o modelo ainda mais atrativo para profissionais com altos rendimentos.
A tendência é evidenciada por números: uma pesquisa da Agência de Conteúdo Criativo da Coreia apontou crescimento na representação por gravadoras solo, ao mesmo tempo em que a dependência de grandes empresas diminuiu de forma consistente entre 2020 e 2024.
Casos emblemáticos e impacto regulatório no k-pop
Entre os exemplos mais notáveis está BoA, que encerrou sua longa parceria com a SM Entertainment no fim de 2025 e lançou sua própria empresa, a BApal Entertainment, no início de 2026. A artista, uma das pioneiras da expansão global do K-pop, passou a adotar um modelo mais próximo de seus fãs e com maior controle sobre sua produção.
Integrantes do BLACKPINK também seguiram caminhos semelhantes. Após o fim de seus contratos individuais com a YG Entertainment, nomes como Jennie, Jisoo e Lisa criaram suas próprias empresas para gerenciar carreiras solo, enquanto Rosé optou por se vincular a uma gravadora menor e mais especializada.

No entanto, o avanço desse modelo também trouxe desafios regulatórios. O caso envolvendo Cha Eun-woo ganhou destaque após a aplicação de uma multa bilionária por suposta irregularidade fiscal. As autoridades reclassificaram receitas vinculadas a uma empresa familiar como renda pessoal, levantando questionamentos sobre a legalidade de determinadas estruturas empresariais.
Outros artistas também enfrentaram investigações semelhantes, o que expôs lacunas no sistema de fiscalização. Atualmente, o registro de empresas de entretenimento ocorre de forma descentralizada, sem um controle unificado por parte do governo central.
Diante desse cenário, propostas legislativas buscam criar mecanismos mais rígidos de supervisão. Um projeto em discussão prevê a obrigatoriedade de relatórios ao Ministério da Cultura e restrições à atuação de indivíduos envolvidos em crimes fiscais, numa tentativa de equilibrar liberdade empresarial e transparência.
A transformação em curso revela uma tensão entre inovação e regulação. Se por um lado as agências solo representam um avanço na autonomia dos artistas, por outro levantam debates sobre limites legais e práticas fiscais. O desafio das autoridades será acompanhar a velocidade dessas mudanças e estabelecer critérios claros para diferenciar iniciativas legítimas de possíveis irregularidades em um setor cada vez mais globalizado.
Foto destaque: Grupo de k-pop, VIVIZ (Foto/Divulgação/X@VIVIZ_official)