
Discurso de ódio ganha espaço nas salas de aula sul-coreanas e preocupa professores
Alunos da Coreia do Sul cada vez mais dissipam discurso de ódio e de extrema-direita, sem entender as origens e problemáticas, o que está preocupando professores de diversas escolas. Com gírias como “gravidade” (“jungryeok”) e outras utilizadas em fóruns online, os mais jovens disseminam ideias de ódio e zombaria de mortes e catástrofes.
Leia mais: Brasileira que perseguia Jung Kook é condenada à prisão e será deportada
Leia mais: Professores sul-coreanos relatam trauma à Justiça após deepfakes sexuais criados por alunos
Segundo professores, os casos não são isolados e refletem a presença crescente de discursos antes restritos a comunidades extremistas da internet nas salas de aula. Alunos também relataram ouvir esse tipo de linguagem sendo utilizada com frequência entre os colegas.

Presença crescente do discurso de ódio como brincadeira
Ao tentar explicar o conceito de “gravidade”, um professor de uma escola secundária na província de Gyeonggi percebeu algumas risadas baixas vindas de alunos. Ao pesquisar, descobriu que a palavra é utilizada como gíria codificada para zombar da morte, em 2009, do ex-presidente liberal Roh Moo-hyun, que faleceu após uma queda de um penhasco.
“Há cerca de 10 anos, raramente me deparava com expressões de ódio que não reconhecesse. Agora, novas surgem o tempo todo e até mesmo os professores têm dificuldade em acompanhar”, explicou o professor acerca do discurso de ódio visto como brincadeira pelos mais novos.
Um episódio durante um jogo de beisebol entre escolas reforçou a preocupação. Integrantes da Escola Paichai entoaram cânticos associados à polêmica campanha “Tank Day”, da Starbucks Coreia, interpretada como uma zombaria ao Levante Democrático de Gwangju de 1980, durante uma partida contra uma equipe da cidade de Gwangju.
Os alunos também notaram as mudanças preocupantes: “Às vezes ouço meus colegas usando essas expressões”, comentou Choi Yoon-woo, aluno do primeiro ano do ensino fundamental em Gwacheon, província de Gyeonggi.
Outro relato é sobre o “Ilbe”, abreviação de Ilgan Best Storage, é um fórum online controverso associado a discursos de extrema direita, misoginia e conteúdo ofensivo. Entre seus principais alvos do discurso de ódio estão mulheres de cabelo curto até ex-presidentes e vítimas da violência estatal durante o Levante de Gwangju.
Discurso de ódio visto em dados

Uma pesquisa do Sindicato Coreano de Professores e Trabalhadores da Educação (KTU) indica que discursos antes restritos a comunidades online de extrema direita passaram a fazer parte do ambiente escolar.
Entre 177 professores entrevistados, 89,8% consideraram o discurso de ódio de extrema direita um problema sério nas escolas, enquanto 80,2% relataram ouvir essas expressões frequentemente entre estudantes. Entre os discursos mais vistos, estão comentários depreciativos sobre atuais e antigos presidentes, com 50,4%.
Outros dados mostram que esse ódio também se alastra para: discurso de ódio político ou anti-China, com 37,9%; discurso de ódio sexista, com 20%; distorções políticas ou históricas, com 15%; discurso de ódio direcionado a minorias, com 12%; e insultos regionais, com 3,6%.
Essa pesquisa apenas reforça os resultados obtidos em um relatório de 2025 da organização sem fins lucrativos Diversity Korea. Nesses dados, 68% de 200 professores afirmaram já ter se deparado com discurso de ódio dentro das salas de aula, com mais frequência do que seis ou cinco anos atrás.
Para o professor Lee, os alunos não sabem a gravidade e importância do que falam, já que são muito sensíveis ao que está em alta. “Muitos repetem essas expressões porque elas circulam online, não porque compreendam plenamente seu significado histórico ou político”, complementou.
Preocupação com o futuro

Outra preocupação com os professores é com a disseminação cada vez mais recorrente do discurso de ódio para todas as idades. “O discurso de ódio se misturou à gíria do dia a dia, tornando muito mais difícil reconhecê-lo e combatê-lo”, ressaltou Lee.
A pesquisa da KTU também mostrou que mais da metade dos professores costuma intervir diante de discursos de ódio, embora 75,2% considerem difícil lidar com esse tipo de situação. Eles relatam a falta de práticas concisas para combater, além de incertezas de como responder e preocupação com a reação dos pais e responsáveis.
“Os alunos são expostos a essas expressões muito antes de entrarem na sala de aula. Os professores precisam de apoio institucional e espaço para discutir por que essa linguagem é prejudicial, em vez de simplesmente dizer aos alunos para não a usarem”, reforçou a porta-voz da KTU, Kim Hee-jung.
Ao fim, Lee afirmou que apenas punição não resolverá os problemas com discurso de ódio, mas que precisam entender que usá-lo não os deixa mais engraçados e inteligentes, mas sim, prejudica os demais e o futuro de cada um.
Foto Destaque: Coroas de flores fúnebres foram colocadas em frente à Escola Secundária Paichai, no distrito de Gangdong, em Seul, após discurso de ódio. Divulgação/ Yonhap