
Cineastas coreanos buscam protagonismo criativo em parcerias com Hollywood
A indústria cinematográfica da Coreia do Sul atravessa um momento decisivo. Após anos de crescimento impulsionado pelo sucesso local e pela exportação de formatos e direitos de remake, o setor agora enfrenta limites claros nesse modelo. Diante desse cenário, cineastas e produtores coreanos são incentivados a adotar uma postura mais ativa e estratégica nas parcerias com Hollywood, deixando de atuar apenas como fornecedores de conteúdo para assumir a liderança criativa das produções internacionais.
Essa mudança de mentalidade foi destacada em um relatório divulgado na última sexta-feira pelo Conselho de Cinema Coreano (KOFIC), agência estatal responsável por apoiar e promover o audiovisual no país. O documento aponta que a dependência excessiva da bilheteria doméstica e da venda de propriedades intelectuais não é mais suficiente para sustentar o crescimento da indústria, especialmente em um mercado global cada vez mais competitivo e concentrado.
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Segundo a KOFIC, a crise atual exige uma reformulação profunda na forma como o cinema coreano se insere no mercado norte-americano. Mais do que vender boas ideias, é preciso garantir espaço decisório, influência artística e controle sobre a execução dos projetos, desde o desenvolvimento até a distribuição.

Mudança de paradigma para acessar o mercado norte-americano
Para Han Sang-jun, presidente da KOFIC, a transformação é urgente. O executivo defende que o acesso ao maior mercado cinematográfico do mundo não pode mais ocorrer de forma passiva ou ocasional. “Uma mudança no paradigma de entrada no mercado norte-americano é urgente”, afirmou ao reforçar que a agência precisa estruturar políticas públicas que reflitam as necessidades reais dos profissionais do setor.
Han destacou que o conselho pretende estabelecer uma base política mais prática e alinhada às demandas do mercado global, criando condições para que diretores, roteiristas e produtores coreanos assegurem participação efetiva nas decisões criativas. A proposta envolve uma estratégia de promoção centrada na demanda local dos Estados Unidos, combinada com uma nova lógica de coprodução e inserção internacional.
O dirigente também ressaltou que o estudo divulgado pela KOFIC deve servir como referência para políticas futuras voltadas à revitalização da presença coreana na América do Norte. A expectativa é que essas medidas fortaleçam tanto a entrada de filmes sul-coreanos no circuito internacional quanto o desenvolvimento de coproduções mais equilibradas.

Criadores coreanos no centro do processo produtivo
Um dos principais pontos do relatório é a defesa de um novo modelo de colaboração, no qual os criadores coreanos e suas propriedades intelectuais liderem todo o processo de produção desde o início. Em vez de apenas licenciar histórias ou conceitos, a proposta é que diretores e produtores assumam papéis centrais, influenciando decisões narrativas, estéticas e estratégicas.
Produções recentes como “Bugonia” e “The King of Kings” são citadas como exemplos desse movimento. Nessas colaborações, cineastas coreanos deixaram de ser coadjuvantes para se tornar pilares fundamentais das produções norte-americanas, demonstrando que é possível conciliar padrões industriais de Hollywood com uma identidade criativa própria.
Apesar dos avanços, a KOFIC alerta que muitos profissionais ainda atuam de forma dependente, aguardando convites de grandes estúdios. O relatório enfatiza que, para consolidar sua posição, os cineastas coreanos precisam começar a construir seus próprios negócios, estabelecendo estruturas de produção e parcerias estratégicas de longo prazo.
Obstáculos legais e novas políticas de apoio
Entre os principais impedimentos identificados, está a definição legal rígida do que é considerado um “filme coreano”. Atualmente, muitos projetos internacionais liderados por talentos do país acabam excluídos de políticas de incentivo por não atenderem a critérios baseados sobretudo na origem do capital investido. Essa limitação, segundo a KOFIC, não reflete a realidade contemporânea da produção audiovisual global.
Para enfrentar o problema, a agência planeja reformular seus critérios de reconhecimento, priorizando a contribuição qualitativa de diretores e produtores coreanos. A ideia é avaliar o grau de controle criativo exercido e a presença da visão artística no projeto, em vez de se limitar à porcentagem de investimento nacional.
Essa mudança permitiria, por exemplo, que obras como “The Hole”, próximo trabalho do diretor Kim Jee-woon, financiado por capital americano, mas conduzido por um cineasta coreano, recebam apoio institucional. Além disso, a KOFIC anunciou a reestruturação de seu suporte financeiro, com a criação de uma nova cota de coprodução internacional voltada a filmes de orçamento médio. A expectativa é que essa política estimule uma perspectiva global desde as etapas iniciais de planejamento, preparando o cinema coreano para atuar não apenas como exportador de ideias, mas como protagonista criativo no cenário internacional.
Foto destaque: Cena do filme, No Other Choice (Foto/Divulgação/Moho Film)