
Sensível e doloroso, “Limbo” mostra que encontrar a si mesmo não acontece de uma hora para outra
Existem histórias que falam sobre identidade tentando encontrar uma definição para quem somos. “Limbo”, de Deb JJ Lee, segue por um caminho que considero muito mais interessante: aceita que, algumas vezes, essa resposta simplesmente não existe — pelo menos não ainda.
Publicada no Brasil pela editora nVersos, a graphic novel autobiográfica revisita parte da adolescência de Deb, artista que nasceu na Coreia do Sul e cresceu nos Estados Unidos. É uma história sobre imigração e pertencimento, mas também sobre depressão, ansiedade, relações familiares, autoestima e amadurecimento.
E, embora todos esses temas sejam importantes para a obra, o que mais me marcou durante a leitura foi a sensação de desconforto permanente que atravessa suas páginas. Deb parece estar sempre procurando um lugar para ocupar. Não apenas geograficamente, entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, mas dentro da família, entre os amigos e, principalmente, dentro de si. E talvez seja justamente por isso que “Limbo” seja um título tão certeiro.
O desconforto de existir entre dois lugares
Deb deixou a Coreia do Sul ainda criança e, por isso, cresceu com uma relação fragmentada com o país onde nasceu. Ao mesmo tempo, viver nos Estados Unidos não significa automaticamente sentir-se parte daquele lugar. Essa experiência de crescer entre duas culturas aparece constantemente na graphic novel.
Há expectativas familiares, diferenças culturais, dificuldades relacionadas à língua e episódios de preconceito e microagressões. Mas achei interessante que Deb não transforma a experiência da imigração em uma explicação única para todos os seus conflitos.
Ela é uma peça importante de algo muito maior. Porque estamos acompanhando também uma adolescente tentando entender amizades, aparência, desempenho escolar, expectativas para o futuro e a relação cada vez mais difícil com a própria mãe.

E existe algo particularmente doloroso em perceber como todas essas inseguranças começam a se acumular. Em muitos momentos, não existe um grande acontecimento responsável pelo sofrimento de Deb. São pequenas situações, comentários, comparações, silêncios e frustrações que vão se somando até se tornarem pesados demais.
Para mim, essa é uma das maiores qualidades da narrativa. “Limbo” entende que nem sempre conseguimos apontar exatamente onde uma dor começou.
Uma história que não tenta deixar ninguém confortável
Apesar da delicadeza visual, esta não foi uma leitura que eu consideraria leve. Deb fala abertamente sobre ansiedade, depressão, isolamento, baixa autoestima e crises graves de saúde mental. Alguns dos momentos mais difíceis, porém, estão dentro de casa.
A relação com a mãe ocupa uma parte importante da narrativa e envolve episódios de violência física e emocional. E foi justamente aqui que encontrei uma das escolhas narrativas mais interessantes — e desconfortáveis — da obra. Deb não tenta transformar a mãe em uma personagem unidimensional.
Isso não significa justificar suas atitudes ou diminuir a gravidade daquilo que aconteceu. Significa reconhecer que relações familiares podem carregar contradições difíceis de organizar. A mesma pessoa capaz de ferir também demonstra carinho. A mãe que impõe expectativas e provoca sofrimento também consegue incentivar o talento artístico de Deb.
Essa ambiguidade torna tudo mais complicado. E mais humano. Eu gosto quando uma autobiografia confia no leitor o suficiente para apresentar essas contradições sem entregar uma interpretação pronta. Em “Limbo”, Deb mostra suas memórias e permite que elas permaneçam desconfortáveis.
Não existe a obrigação de encontrar um vilão perfeito para que a dor seja legítima.
E então entra a arte
Se eu tivesse que escolher apenas um elemento para destacar em “Limbo”, provavelmente seria a forma como Deb utiliza a linguagem visual para contar aquilo que as palavras não conseguem. Porque esta não é simplesmente uma história ilustrada. O desenho é parte essencial da narrativa.
A obra utiliza predominantemente tons azulados e acinzentados, criando uma atmosfera fria e melancólica que acompanha o estado emocional da protagonista. Conforme avancei pelas páginas, comecei a perceber como cenários, sombras, enquadramentos e iluminação assumem funções que normalmente esperaríamos encontrar nos diálogos.

Existem sequências em que quase nada precisa ser dito. E são justamente algumas dessas páginas silenciosas que considero as mais bonitas do livro. Deb consegue transformar solidão em espaço. Consegue fazer um ambiente parecer enorme quando a personagem se sente pequena. Consegue utilizar água, luz e sombra para sugerir emoções sem precisar nomeá-las.
É aquele tipo de quadrinho que perderia uma parte enorme de sua força se fosse transportado diretamente para outro formato. Texto e imagem não estão competindo pela atenção do leitor. Um completa aquilo que o outro não consegue dizer.
Quando desenhar passa a significar sobreviver
A arte também ocupa outro papel fundamental dentro da própria história. Ao longo da adolescência retratada no livro, desenhar começa a se tornar uma maneira de Deb organizar sentimentos que ainda não consegue compreender completamente.
E essa transformação me interessou muito. Porque a arte não aparece como uma solução mágica. Deb não começa a desenhar e, de repente, todos os problemas desaparecem. A depressão não deixa de existir. Os conflitos familiares não são automaticamente resolvidos. As inseguranças continuam ali.
Mas surge uma possibilidade. Um espaço em que aquilo que parecia impossível de verbalizar finalmente consegue assumir alguma forma. Por isso, vejo “Limbo” também como uma história sobre descobrir uma linguagem própria. Antes mesmo de compreender completamente quem é, Deb começa a descobrir uma maneira de falar sobre si.
Não espere uma história de superação convencional
Talvez uma das coisas que eu mais tenha gostado seja justamente o fato de “Limbo” não tentar transformar sofrimento em uma história inspiradora perfeitamente organizada. Existe terapia. Existe amadurecimento. Existe arte. Existem mudanças. Mas não existe milagre.
A recuperação acontece de maneira irregular, como costuma acontecer fora das histórias também. Há avanços, recaídas, novas inseguranças e questões que simplesmente não recebem uma resposta definitiva. Inclusive, considero importante entender que estamos lendo as memórias de uma pessoa que ainda não possuía todas as ferramentas para compreender a própria identidade.

Hoje, Deb JJ Lee se identifica como uma pessoa trans não binária e utiliza os pronomes neutros they/them em inglês. Essa compreensão, porém, veio posteriormente. Por isso, identidade de gênero não se transforma artificialmente no grande tema da graphic novel. O que encontramos são dúvidas, desconfortos e uma busca por pertencimento que, olhando retrospectivamente, ganham novas camadas. E gosto muito dessa escolha.
Seria fácil reorganizar o passado para fazer cada acontecimento apontar perfeitamente para a pessoa que Deb se tornaria no futuro. “Limbo” permite que a adolescência continue sendo confusa. Como ela realmente foi.
Afinal, vale a pena ler “Limbo”?
Para mim, “Limbo” funciona justamente porque não parece interessado em encontrar uma grande lição capaz de resumir tudo o que Deb viveu. É uma graphic novel extremamente pessoal, mas que encontra algo universal dentro dessa especificidade.
Talvez você nunca tenha deixado seu país de origem. Talvez nunca tenha crescido entre duas culturas. Talvez sua relação familiar seja completamente diferente.
Ainda assim, é difícil não reconhecer alguma coisa naquela sensação de olhar ao redor e perceber que todo mundo parece ter encontrado seu lugar enquanto você continua procurando o seu. E foi isso que permaneceu comigo depois da leitura.
Além de ser visualmente impressionante, “Limbo” é uma obra sensível, dolorosa e profundamente honesta sobre o processo de tentar construir uma identidade enquanto tudo dentro e ao redor de você parece instável.
Não considero uma leitura fácil. Alguns acontecimentos são realmente pesados e podem ser particularmente difíceis para leitores sensíveis a temas relacionados à depressão, violência familiar e crises de saúde mental.
Mas também não considero uma história desesperançosa. Existe esperança aqui. Ela apenas não chega na forma de uma resposta definitiva. E talvez essa seja a ideia que mais gostei de encontrar em “Limbo”: algumas fases da nossa vida não terminam quando finalmente descobrimos exatamente quem somos.
Às vezes, sair do limbo significa simplesmente perceber que não precisamos ter todas as respostas para começar a encontrar nosso próprio lugar.