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Crítica | Hwasa domina o Rock in Rio com um show à altura de sua personalidade

Crítica | Hwasa domina o Rock in Rio com um show à altura de sua personalidade

Eu confesso que tinha uma expectativa bem alta para ver Hwasa no Rock in Rio. Não apenas porque era a estreia solo da cantora no festival, mas porque existe algo muito particular na forma como ela se apresenta.

Hwasa nunca foi uma artista que precisou se encaixar perfeitamente na imagem mais comportada que muitas vezes acompanha o K-pop. Ela tem sensualidade, atitude, presença e, principalmente, sabe usar tudo isso a favor da própria música. Depois de ver o show no Palco Mundo, posso dizer sem muita dúvida: Hwasa entregou um showzaço.

E não estou falando apenas porque ela dançou muito, usou um figurino provocante ou fez a plateia gritar. O que realmente me chamou atenção foi perceber como todos esses elementos estavam funcionando juntos. Ela não parecia estar ali tentando provar que era sensual. Isso simplesmente fazia parte da apresentação.

Hwasa sabe exatamente que artista quer ser

Uma das coisas que mais gosto em Hwasa é que ela nunca parece pedir desculpas pela própria personalidade. Isso ficou ainda mais evidente no Rock in Rio.

Desde os primeiros minutos, ficou claro que aquela não seria uma apresentação em que a cantora simplesmente subiria ao palco, cantaria suas músicas e iria embora. Ela ocupou o espaço. Dançou, brincou, sorriu, provocou a plateia e transitou pelo palco com uma segurança que combina muito com a carreira que construiu.

A abertura com “HWASA” já estabelece essa identidade. Em seguida, “Chili” aumenta a energia e deixa claro que o show não dependeria apenas do reconhecimento do público.

E isso é importante porque, embora Hwasa tenha fãs muito apaixonados no Brasil, ela não possui o mesmo repertório de hits conhecidos por absolutamente todo mundo que uma grande estrela pop internacional teria. Ainda assim, conseguiu manter a atenção da plateia. Para mim, isso diz muito sobre presença de palco.

A sensualidade não foi o único atrativo do show

É impossível falar sobre Hwasa sem falar de sensualidade. Faz parte da imagem dela, das coreografias e da maneira como interpreta suas músicas. Mas reduzir a apresentação a isso seria perder justamente uma das melhores coisas do show.

Sim, ela foi sensual. Muito. O figurino, os movimentos e a interação com os bailarinos deixaram isso evidente durante toda a apresentação.

Só que nunca tive a sensação de que a sensualidade estava sendo usada como substituta para alguma deficiência na performance. Pelo contrário.

Hwasa cantou, dançou e segurou o palco. E essa combinação é o que faz diferença. Em “I Love My Body”, por exemplo, existe uma mensagem muito ligada à relação da cantora com o próprio corpo e à autoestima.

Quando colocada dentro de um show em que ela se movimenta com tanta confiança, a música ganha ainda mais sentido. Ela não está apenas cantando sobre aceitar o próprio corpo. Está apresentando uma artista que parece completamente confortável em ser vista como é.

Isso, para mim, é muito mais interessante do que simplesmente dizer que Hwasa “esbanjou sensualidade”.

A banda ao vivo fez diferença

Outro ponto que me ganhou foi a presença da banda. Em uma apresentação desse tamanho, seria muito fácil apostar quase completamente nas bases das músicas e deixar que a produção visual carregasse boa parte do espetáculo.

Hwasa, porém, teve uma banda acompanhando a apresentação, com bateria, guitarra e teclado. E eu gosto quando um show pop consegue preservar esse aspecto mais musical.

As músicas ganham outra textura quando existe uma banda de verdade acompanhando a cantora. “I Love My Body” e “Kidding”, por exemplo, funcionam muito bem nesse formato, e os momentos instrumentais ajudam a quebrar a sequência de coreografias e performances.

Também gostei de como a apresentação conseguiu alternar esses momentos sem perder ritmo.

Tinha música para dançar, tinha espaço para os vocais, tinha interação com o público e ainda havia momentos em que Hwasa simplesmente podia aproveitar o palco. Para mim, esse equilíbrio fez o show parecer muito mais completo.

hwasa rock in rio 2026
Transmissão ao vivo Rock in Rio

Os vocais de Hwasa sustentaram a apresentação

Se existe uma coisa que eu não consigo ignorar em um show como esse é a capacidade vocal da artista. Uma apresentação pode ter uma produção enorme, bailarinos incríveis e um telão maravilhoso, mas, se a cantora não sustenta a própria performance, tudo começa a desmoronar.

Não foi o caso de Hwasa. Ela conseguiu entregar os vocais enquanto também precisava lidar com coreografias e deslocamentos pelo palco. E isso é particularmente importante porque boa parte do repertório exige uma interpretação bastante física. Eu não fiquei com a sensação de estar assistindo apenas a uma reprodução das versões de estúdio.

Existe uma diferença enorme entre ouvir uma música e ver a pessoa que gravou aquela música transformá-la em uma performance. No Rock in Rio, Hwasa conseguiu fazer essa transição. E, sinceramente, era exatamente o que eu esperava dela.

“Maria” ganhou um significado especial no Brasil

“Maria” era obviamente uma das músicas que eu mais esperava ouvir. A faixa já possui um peso enorme dentro da carreira solo de Hwasa e, no Brasil, ganhou ainda uma brincadeira que parecia feita sob medida para aquele momento.

Quando ela falou sobre a quantidade de brasileiras chamadas Maria, a resposta do público veio imediatamente.

Eu achei esse momento especialmente simpático porque não pareceu uma tentativa exagerada de criar uma conexão artificial com a plateia. Foi uma interação simples, mas que funcionou justamente porque existia uma identificação real ali.

E quando “Maria” começou, o momento ficou ainda mais especial. A música fala sobre reconhecer o próprio valor, e existe algo muito coerente em Hwasa cantá-la diante de milhares de pessoas enquanto sustenta justamente essa imagem de mulher que não tem medo de ocupar espaço.

Foi um dos momentos em que senti que o repertório e a persona da cantora estavam completamente alinhados.

O MAMAMOO também esteve presente

Eu também não poderia deixar de mencionar o medley do MAMAMOO. Por mais que aquele fosse um show solo, existe uma parte enorme da história de Hwasa que está ligada ao grupo.

E ouvir músicas como “Décalcomanie”, “Egotistic” e “HIP” foi uma maneira de reconhecer essa trajetória sem transformar a apresentação em um show do MAMAMOO.

“Décalcomanie”, principalmente, teve aquele gostinho de nostalgia para quem acompanha o grupo há anos.

E acho que isso funcionou porque Hwasa não ficou presa ao passado. Ela mostrou de onde veio, mas o palco era dela.

O reencontro com o Brasil demorou, mas valeu a espera

Hwasa já havia passado pelo Brasil com o MAMAMOO em 2018. Oito anos depois, voltou ao país para se apresentar sozinha em um dos maiores festivais de música do mundo.

É bastante tempo. Por isso, achei interessante que a apresentação carregasse essa sensação de reencontro sem transformar tudo em uma grande declaração sobre saudade.

Ela falou com os fãs, agradeceu pela espera, se aproximou da plateia e, em alguns momentos, deixou claro que estava genuinamente feliz por finalmente estar ali. E acho que o público percebeu.

A energia da plateia durante o show não dependia necessariamente de todo mundo saber cantar todas as músicas. Muitas vezes, a resposta vinha nos gritos, nos movimentos e na reação às performances.

Hwasa conseguiu conversar com esse público mesmo falando majoritariamente em coreano, contando com uma intérprete em alguns momentos. E, curiosamente, achei isso até interessante. Nem toda relação entre artista e público precisa passar pelo inglês para funcionar.

Hwasa não precisou mudar para conquistar o Rock in Rio

Talvez essa seja a minha principal conclusão sobre o show. Hwasa não chegou ao Rock in Rio tentando parecer outra pessoa.

Ela não suavizou a sensualidade que faz parte de sua carreira. Não abandonou as coreografias. Não transformou sua personalidade para tentar se adequar ao que talvez fosse esperado de uma artista de K-pop diante de um público tão grande e diverso.

Ela simplesmente fez o que sabe fazer. E fez muito bem. Para mim, esse é o grande mérito da apresentação. Hwasa conseguiu levar para o Palco Mundo a mesma artista que construiu sua identidade ao longo da carreira.

Ela foi sensual porque é sensual. Foi provocante porque isso também faz parte da sua arte. Cantou, dançou, brincou, sorriu e se entregou ao público porque esse é o tipo de performer que ela é.

No fim, não pareceu que o Brasil recebeu uma versão adaptada de Hwasa. Recebemos Hwasa. E talvez seja justamente por isso que o show tenha funcionado tão bem.

A estreia do K-pop no Rock in Rio já tinha um peso histórico por si só, mas Hwasa conseguiu fazer com que a noite não fosse lembrada apenas por esse marco. Ela entregou um espetáculo que se sustenta independentemente do contexto.

Quando saiu do palco com a bandeira do Brasil e diante de uma plateia completamente entregue, a sensação era bastante simples: depois de tantos anos esperando pelo retorno da cantora, ela finalmente estava aqui — e não deixou absolutamente nada a desejar.

Foi um show de qualidade, personalidade e sensualidade na medida em que só Hwasa consegue fazer. E, para mim, foi uma estreia solo que o Rock in Rio vai ter dificuldade de esquecer.