
Tensões China e Japão reacendem temor de nova repressão cultural
Em 19 de novembro, fãs da cantora e compositora japonesa Kokia viveram momentos de frustração. O show que seria realizado em Pequim, na China, foi cancelado abruptamente, ampliando as preocupações de que a crescente tensão diplomática entre China e Japão possa desencadear um novo ciclo de repressão cultural.
De acordo com relatos publicados nas redes sociais, os fãs aguardaram por mais de uma hora diante do local, já após o horário previsto para o início da apresentação. Sem qualquer explicação imediata, muitos deixaram o local perplexos e sem ver a artista no palco.
Para Wang Xiaobu, funcionária de escritório que havia comprado ingresso para o show em Pequim, a decepção não foi o desfecho. Em decisão impulsiva, ela embarcou para Guangzhou no fim de semana seguinte para assistir a outra apresentação da cantora.
“Transformei o arrependimento em contentamento”, escreveu na plataforma RedNote. “O cancelamento de última hora da minha primeira viagem acabou levando à minha primeira viagem de última hora. Uma experiência inesquecível.”

O episódio, no entanto, parece estar ligado ao agravamento das tensões bilaterais após declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sugerindo que Tóquio mobilizaria suas forças de autodefesa no caso de um ataque chinês a Taiwan.
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Crescentes repercussões diplomáticas
A China, que considera Taiwan parte de seu território, reagiu duramente às declarações e exigiu que Takaichi as retirasse. A resposta incluiu medidas econômicas e, progressivamente, impactos no setor cultural, como o congelamento de estreias de filmes japoneses nas salas de cinema chinesas.
Levantamentos informais feitos por internautas indicam que pelo menos 20 shows, encontros com fãs e apresentações de artistas japoneses foram cancelados ou adiados em grandes cidades da China desde as declarações da líder japonesa.
O movimento reacende temores entre consumidores chineses de cultura pop japonesa, que receiam que o acesso a animes, games, séries e música possa ser limitado, ou até banido, num cenário que lembra a chamada “proibição da onda coreana” (Hallyu), imposta em 2016 após a instalação do sistema antimíssil THAAD.
Um mercado moldado por jovens
Grande parte das gerações millennial e Z cresceu acompanhando produções japonesas — de animações e mangás a jogos e séries. Esse entusiasmo impulsionou uma robusta “economia de bens” centrada no universo ACG (anime, quadrinhos e games).
Xangai tornou-se um polo dessa cultura, concentrando eventos, exposições e lojas temáticas graças à proximidade geográfica com o Japão, que facilita a circulação de artistas e produtos.
“Não é só perder aquilo que compro. É perder parte do nosso estilo de vida”, lamenta Wang Yulu, estudante de 22 anos em Xangai e fã de longa data de animações japonesas. “Se o acesso for restringido, a cultura pode simplesmente desaparecer do seu mundo.”
Segundo a consultoria iiMedia Research, o mercado chinês de produtos relacionados à cultura ACG movimentou 168,9 bilhões de yuans (US$ 23,8 bilhões) no ano passado, alta de 40,6% em relação a 2023. A projeção é que ultrapasse 300 bilhões de yuans até 2029.
O precedente da onda coreana
Para muitos fãs, o cenário atual evoca memórias da repressão à cultura sul-coreana. A partir de 2016, dramas e filmes coreanos deixaram de passar nas avaliações de transmissão chinesas, inviabilizando sua exibição no país. Grandes shows de K-pop também foram suspensos.
“Antes havia muitos programas coreanos, celebridades e produtos aqui”, lembra Wang Yulu. “Depois da proibição, minha visão sobre a Coreia ficou limitada quase só ao K-pop.”

A frustração também afetou fãs da boy band sul-coreana Epex, cujo show marcado para Fuzhou foi cancelado pouco após o anúncio, uma decisão justificada pela produtora C9 Entertainment devido a “circunstâncias locais”. Para a estudante Haerin Ouyang, que vive a apenas 10 minutos do local da apresentação, foi um golpe duro: “Eu estava de coração partido.”
Expectativas cautelosas
Especialistas avaliam que restrições podem se intensificar, mas futuro ainda é incerto. Enquanto parte dos internautas apoia medidas voltadas à limitação das exportações culturais japonesas, especialistas ouvidos por veículos locais solicitam prudência. Para eles, embora o clima geral seja menos otimista, ainda não está claro se o atual endurecimento evoluirá para uma proibição de longo prazo.
“Resta saber se as restrições se transformarão em uma proibição sistêmica, levando a uma paralisação completa dos intercâmbios culturais, como ocorreu com a onda coreana”, analisa Zheng Zhihua, professor associado do Centro de Estudos Japoneses da Universidade Jiao Tong de Xangai.
Foto destaque: Reprodução / Getty Images