
“Um dia de sorte em Nova York” explora não apenas o recomeço, mas o apagamento de quem ainda sonha em brilhar
Para aqueles que gostaram de “Parasita”, “Old Boy” e “Em Chamas”, “Um Dia de Sorte em Nova York” pode ser ideal para a próxima maratona de filmes. Sendo o primeiro longa-metragem do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen (“Same Old” e “Closing Dynasty”), o filme de nome original “Lucky Lu”, de 2025, aborda a trama de Lu, um imigrante chinês que ganha a vida por meio de entregas na caótica Manhattan.
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Em meio ao caos da vida na cidade grande, Lu encontrará, após cinco anos, sua filha e sua esposa, que pousam no país a fim de conquistar o sonho americano. Mesmo diante de tantas dificuldades, Lu investe energia em deixar sua família confortável e ascender socialmente. A estreia mundial da coprodução entre Canadá e Estados Unidos aconteceu em 2025, durante a Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes, voltada a cineastas em início de carreira, e agora chega ao Brasil por meio da plataforma Filmelier+.

A farsa do sonho americano
Já no início do filme, somos apresentados a Lu, protagonizado por Chang Chen, em expectativa para reencontrar a esposa e a filha, as quais ainda estão na China. Logo, a felicidade do homem começa a ser colocada em xeque, visto que, logo após pegar a chave do apartamento em que irá morar com a família, sua bicicleta é roubada, acabando com sua única fonte de renda. Nova York não é apenas o cenário, mas um personagem essencial dessa trama, exibindo a correria, o desespero e o sonho de ascensão das metrópoles.
Com isso, Lu percorre todos os locais da cidade buscando empréstimos, favores e penhorando os poucos itens que possui um dia antes da chegada da família. Isso nos permite conhecer mais da comunidade de imigrantes asiáticos na trama, os quais foram ao país em busca do sonho americano e agora se encontram espalhados por becos, vielas e bares de jogatina. Enquanto Lu busca ajuda, seus companheiros buscam sobreviver.
“Um Dia de Sorte em Nova York” apresenta seu paradoxo a cada segundo, visto que a última coisa que Lu tem é sorte. Com a chegada da família não sendo totalmente como planejado, nos sentimos mais íntimos do protagonista em cada cena em que ele não come para deixar mais alimento para a esposa e a filha e tenta se mostrar otimista diante de sua pequena Yaya.

Em determinadas cenas, o filme carece de mais explicação ou mais impacto, como no atropelamento ou quando Yaya se perde de Lu. Os acontecimentos são tão seguidos e a maré de azar do pai parece tão grande, que o filme se torna uma trama linear de tragédias. Tão difíceis de lidar que um atropelamento parece ser o de menos (ou, pelo menos, é isso que o filme passa).
“Um dia de sorte em Nova York” nos convida a parar e refletir
Se você espera um filme com grandes reviravoltas, ápices e cenas megalomaníacas, talvez esse drama não seja para você. Isso porque Shi-Zheng Chen nos convida, de forma íntima, a acompanhar Lu em seu anseio de fazer tudo dar certo. As cenas fechadas, escuras e úmidas nos dão a sensação de aperto e desespero, como se fôssemos a sombra de Lu; em outras, vemos cores e momentos pelas polaroids de Yaya, que tenta fotografar cada momento na esperança de registrar as memórias com o pai.
Ao final do filme, Yaya recebe um conselho de uma amiga do pai: “Só quero que você saiba, querida, que para gente como a gente,não dá para mudar o destino. O que está destinado a ser, vai chegar até você… Não importa o quão grandes sejam suas ambições..Você não pode mudar o que está por vir. Não importa o quanto trabalhe.” A fala ocorre enquanto Lu está tentando roubar uma nova bicicleta para poder fazer suas entregas e nos deixa a reflexão sobre diferenças sociais e dificuldades na vida de um imigrante que, incansavelmente, tenta alcançar seus sonhos.
“Um Dia de Sorte em Nova York” não possui trilha sonora, nem maquiagens artísticas que serão reproduzidas em alguma festa, muito menos galãs sem camisa para criarmos cenários falsos, mas sim a corrida incansável de quem ainda anseia ser feliz e visto.
Foto Destaque: Lu e Yaya de “Um dia de sorte em Nova York”. Divulgação/Folha – UOU