Na próxima sexta-feira (29/05), o rapper amazonense Victor Xamã e o produtor sul-coreano WillsBife lançam o álbum “Estreito”. Essa obra propõe uma ponte sonora, estética e conceitual entre a Amazônia brasileira e a Coreia do Sul.
O disco supera a música tradicional ao unir audiovisual e identidade. Ele narra uma jornada que atravessa territórios e reconecta culturas distintas. Os artistas inspiraram-se na Teoria do Estreito de Bering para criar essa linguagem artística. Essa teoria aponta a ligação ancestral entre povos da Ásia e das Américas.
Como parte da divulgação, os artistas concederam-nos uma entrevista exclusiva. Conversamos sobre o conceito e a direção criativa do álbum “Estreito”. Malu Ciciliani conduziu a conversa com os artistas para o Korean Magazine BR.
SOBRE O ENCONTRO E O PROCESSO CRIATIVO
Os artistas Victor Xamã e WillsBife contam que iniciaram a parceria de forma muito espontânea. Eles trabalharam juntos anteriormente no álbum “Febre Amarela”, lançado pelo produtor sul-coreano. Após esse período, WillsBife convidou o cantor para uma sessão de estúdio. Eles criaram uma música e logo abriram caminho para novas composições. O projeto surgiu de um encontro natural e distanciou-se de interesses comerciais. Os artistas destacaram que a união fluiu livremente, valorizando a identidade cultural de ambos.
KMBR: Como foi o primeiro momento em que vocês sentiram que esse projeto era possível de verdade — que a Amazônia e a Coreia do Sul podiam coexistir no mesmo som?
Victor Xamã:“Eu acredito que foi algo muito natural. Eu e o Willis já tínhamos trabalhado juntos no álbum que ele lançou, chamado Febre Amarela. Depois de um bom tempo, ele me chamou para uma sessão de estúdio, em que fizemos uma música, e essa música levou a outra. Então foi tudo muito fluido mesmo, sabe? Não foi algo intencional ou mercadológico, mas orgânico. A forma como aconteceu esse nosso encontro foi muito espontânea. E eu acho que não tem como fugir da nossa origem e da nossa cultura. Isso, consequentemente, acabou sendo representado no trabalho. Como a gente estava conversando antes, quando você vem de onde vem, não consegue se distanciar disso. Sabe? Acho que toda a teoria estética do disco foi se construindo aos poucos, complementando essa coincidência da nossa junção”.
WillsBife:“Eu acho também que foi uma parada bem natural. Como o Victor falou, tanto na parte do álbum quanto em todas essas conexões, existe um ponto em comum entre a Amazônia e a Coreia. Sabe? Foi algo que a gente tentou assimilar e reunir dentro de um único projeto”.
Durante a entrevista, o KMBR questionou a dupla sobre a rotina de trabalho e os descartes na produção. WillsBife explicou que testou diversas versões das faixas para garantir o melhor resultado sonoro ao público. Produtor e cantor alinharam os encaixes vocais e a construção das rimas em cada música. WillsBife destacou: “Eu e o Victor nos entendemos na forma de rimar e encaixar o vocal. No fim, nós nos acertamos”.
Victor descreveu a floresta como uma linguagem natural e consciente, sem se distanciar de sua origem. Eles retrataram a região de forma simples. Além disso, com cuidado constante, evitaram qualquer estereótipo exótico.
SOBRE IDENTIDADE, TENSÃO E PERTENCIMENTO
Sobre a opinião de conhecidos, Victor explicou que alguns estranharam a mistura cultural inicial e o potencial de venda. Contudo, os músicos defenderam o pioneirismo da ideia com firmeza. Eles buscaram uma linguagem universal para o mundo. Victor Xamã afirmou: “Quando a arte desafia o incomum, ela cumpre o seu papel”.
Foto: Divulgação
Mesmo nascido e criado no Brasil, WillsBife, que possui ascendência sul-coreana, afirmou que já foi questionado sobre a necessidade de provar seu talento por ser um produtor de origem coreana no cenário brasileiro. O artista confirmou que, devido à sua aparência, frequentemente enfrenta olhares diferentes, apesar de ter nascido e crescido em solo brasileiro. Ele lida com esse desafio diariamente para fortalecer sua identidade e crescer na música. Ele desabafou: “Você sai daqui, mas parece que não pertence a este lugar, embora more aqui”.
O debate seguiu para a ancestralidade, termo por vezes desgastado no rap atual. Victor explicou que não enxerga esse conceito como algo distante no passado. Ele o vê como uma força viva no presente. Para ele, somos a soma das escolhas e dos movimentos realizados por nossos antepassados e regiões.
“Porque nós somos a soma das escolhas e dos movimentos dos nossos antepassados e da nossa região. E, principalmente, o contexto em que o Brasil funciona é um contexto complexo, marcado por misturas. (…) Então, eu acho que a ancestralidade, no meu caso, é algo muito presente, que interfere no meu presente e na minha linguagem atual”, afirma Victor.
O cantor apontou que WillsBife expressa essa ideia no título do álbum “Febre Amarela”. Tal obra debate como a sociedade enxerga o povo asiático. Ambos compartilham essa pauta essencial de modo íntimo. Assim, eles transformam a herança cultural em um elemento inegociável de suas carreiras.
Uma estética musical sem fronteiras
No final da conversa, os artistas mencionaram os convidados que participam ativamente do novo trabalho. O disco reúne Janvie, filha de indiano, Hélio, vindo de Angola, e Rick, um japonês com fortes laços baianos. Os músicos não planejaram tal mistura de nações, mas celebraram a diversidade que reflete a dimensão continental do Brasil.
Foto: Divulgação
Por fim, os artistas deixaram um recado especial para o público:
Victor Xamã: “Acho que o recado que eu queria deixar é: escutem o álbum Estreito e nos sigam em todas as redes. Espero que, para quem estiver tendo esse primeiro contato, goste, se interesse pelo que estamos fazendo e possa compartilhar isso com o máximo de pessoas possível”.
WillsBife:“Eu queria agradecer também pelo espaço e convidar todo mundo para ouvir o nosso trabalho: Coreia e Amazônia juntos”.
Victor Xamã e WillsBife não apenas apresentam um álbum, mas consolidam uma proposta estética que ultrapassa fronteiras geográficas e culturais. A obra se estabelece como um encontro entre territórios aparentemente distantes, mas conectados por ancestralidades, deslocamentos e identidades em constante construção. Mais do que fusão sonora, o projeto revela um diálogo sensível entre referências, experiências e vivências que se complementam sem se anular.